Por muitos anos, a água engarrafada foi vendida como sinônimo de pureza, praticidade e segurança. Mas uma nova leva de estudos científicos vêm mostrando que essa conveniência pode esconder riscos que vão muito além do impacto ambiental das garrafas plásticas.
Estudos recentes trazem um alerta importante: o consumo frequente de água engarrafada pode expor nosso corpo a uma quantidade surpreendente de partículas de plástico invisíveis a olho nu, com possíveis impactos para a saúde a médio e longo prazo.
O que os cientistas descobriram sobre a água engarrafada?
Um estudo analisou três marcas comuns de água engarrafada e encontrou, em média, cerca de 240 mil fragmentos microscópicos de plástico em apenas 1 litro. Em algumas amostras, esse número chegou a mais de 400 mil partículas.
O dado mais preocupante é que cerca de 90% dessas partículas não são microplásticos, mas nanoplásticos, ainda menores, capazes de atravessar barreiras biológicas com mais facilidade.
Microplásticos x nanoplásticos: qual a diferença?
Para entender a gravidade do problema, vale lembrar:
- Microplásticos: São pedaços de plástico com menos de 5 mm de diâmetro, ainda pequenos, mas grandes o suficiente para serem estudados há mais tempo.
- Nanoplásticos: São partículas muito menores, na faixa de 1 a 100–1000 nanômetros. Para comparar: 1 centímetro equivale a 10 milhões de nanômetros. Ou seja, estamos falando de fragmentos praticamente invisíveis.
Por serem tão pequenos, nanoplásticos têm maior potencial de atravessar tecidos e circular pelo organismo, o que faz com que muitos pesquisadores os considerem ainda mais preocupantes do que os microplásticos.
Por que isso preocupa médicos e cientistas?
Ainda não existe consenso definitivo sobre todos os efeitos dos micro e nanoplásticos no corpo humano, a ciência está em construção. Mas estudos em células e animais já apontam possíveis impactos em vários sistemas:
- Sistema digestivo
- Sistema respiratório
- Sistema endócrino (hormonal)
- Sistema reprodutivo
- Sistema imunológico
Além disso, essas partículas podem carregar substâncias químicas tóxicas, como metais pesados e compostos orgânicos (como alguns hidrocarbonetos aromáticos policíclicos), que se acumulam na sua superfície e podem entrar em contato com nosso organismo.
A boa notícia é que os pesquisadores evitam o alarmismo: eles reforçam que os riscos ainda estão sendo estudados em detalhes. A má notícia é que tudo indica que estamos expostos a plásticos em uma escala que ninguém imaginava há alguns anos, não só na água, mas também no ar e em alimentos.
De onde vem tanto plástico na água engarrafada?
Os cientistas acreditam que essas partículas têm pelo menos duas origens principais:
- Da própria garrafa plástica: Com o tempo, calor, transporte, atrito e armazenamento inadequado, o plástico vai se degradando e liberando micro e nanoplásticos na água.
- Dos sistemas de filtragem usados pela indústria: Muitos processos industriais utilizam filtros e membranas plásticas para “purificar” a água. Paradoxalmente, esses próprios sistemas podem liberar partículas microscópicas que acabam indo para o produto final.
Ou seja: não é apenas “a garrafinha velha no carro quente”. O problema está também na cadeia de produção e na forma como a água é tratada e envasada.
O que os próprios cientistas mudaram na rotina deles
Depois de ver os resultados do estudo, alguns dos pesquisadores que assinaram o trabalho declararam que reduziram o consumo de água engarrafada.
Alguns passaram a usar apenas água filtrada da torneira, reforçando que, embora não exista uma solução perfeita, diminuir a exposição a plásticos desnecessários é um passo importante.
É um recado forte: se até quem estudou o problema de perto repensou seus hábitos, vale a pena a gente refletir também.
Como diminuir a exposição aos riscos da água engarrafada na prática
Se você quer usar essa informação a seu favor, aqui vão alguns passos simples que podem fazer diferença no longo prazo:
- Reduza o uso diário de garrafinhas descartáveis: Use copos, squeezes ou garrafas reutilizáveis e encha com água filtrada em casa.
- Invista em um bom sistema de tratamento de água: Prefira equipamentos de qualidade, com filtros adequados às características da água da sua região e com manutenção em dia.
- Evite expor plásticos ao calor: Não deixe garrafas plásticas no carro, no sol ou próximas a fontes de calor – isso acelera a liberação de partículas e substâncias químicas.
- Cuide da limpeza dos seus filtros e reservatórios: De nada adianta ter um bom equipamento se a manutenção está atrasada. Siga as orientações de troca de refis e higienização.
- Questione seus hábitos de consumo: A água engarrafada pode ser útil em situações específicas (viagens, emergências), mas talvez não precise ser a base da sua hidratação diária.
Fonte: Época Negócios – G1
